CENTROS DE TREINAMENTO

A notícia divulgada pelo Eduardo Starling, sobre os riscos que pairam sobre o falado centro de treinamento em Campos, leva-nos a refletir mais sobre o assunto.

Temos alguns vicios culturais muito "interessantes" (para não dizer funestos) no Brasil.

Um deles é nunca aproveitar o que já existe, pronto, acabado e muitas vezes OCIOSO.Os políticos preferem sempre criar algo novo, gastar dinheiro com novas obras, pois isso permite superfaturamento, dinheiro no bolso de meia dúzia e algumas placas de bronze para a inauguração, que depois serão roubadas e vendidas no ferro velho.

É assim com escolas, hospitais, ginásios e inúmeras outras obras públicas espalhadas pelo país.

Não posso dizer quantos países que fazem remo de alto nível tem centros de treinamento específicos para um esporte. Aliás, vou partir da premissa de que centros esportivos de treinamento, quando existem, são usados por MUITOS esportes e por vários países, por escolas, para lazer público e também para treinamentos empresariais, poís é óbvio que um centro exclusivo de um esporte é um desperdício de dinheiro, até mesmo nos países ricos.E algumas vezes, até os centros multiesportivos também o são, pois que subutilizados.Não esqueçam de que o sistema da Cortina de Ferro não existe mais.

Vejo muitos países ricos reunirem eventualmente suas equipes e passarem algumas semanas em algum lugar, para um treinamento específico, e ponto final.Para isso não é preciso centro de treinamento nenhum.

Não duvido que uma prefeitura construa uma garagem às margens de uma lagoa, e até mesmo um alojamento com uma cozinha básica.Pode até ser que ponha lá alguns funcionários (pois será uma boa oportunidade de arrumar empregos para alguns correligionários).

Mas não se pode garantir por quanto tempo tal estrutura será mantida, e se ela resistirá se um partido de oposição assumir a prefeitura.

Existem inúmeras garagens de remo fechadas no Brasil, há décadas. E dentre as que estão em atividade, a maioria é subutilizada e ociosa a maior parte do tempo.Poderiam ser usadas para estágios de treinamento, com vantagens para os clubes e sem as desvantagens, para os atletas, do isolamento e do tédio e desmotivação que o acompanha. Lembro-me que, no Rio, as seleções mais antigas concentravam-se no Vasco, ou no Flamengo, ou no Clube Naval. Ou no União (RS). Tinham tratamento diferenciado, influenciavam positivamente as equipes desses clubes.E seus resultados nunca foram inferiores aos atuais. 

Ademais, porque possuir um centro de treinamento se nem conhecemos bem TREINAMENTO?

Porque não investir primeiro em CONHECIMENTO, que é o que nos permitirá utilizar todo o potencial de nossas atuais instalações e atletas? 

Cordialmente,

Wilson Reeberg

Emerim respondeu:

Caros Gustavo e Wílson

Nos saudosos debates do extinto remando.com.br, o Júlio Noronha defendeu a tese de que o nosso remo poderia ter melhores resultados se possuísse um centro de treinamento. Lembrei a ele que o Steve Redgrave foi CINCO vezes campeão olímpico sem que a Inglaterra tivesse um CT para o remo. Lá, a seleção treina em pólos regionais baseados em clubes sob o comando de técnicos da região. Só agora está sendo construído um CT para o remo. Convém lembrar ainda que até 1996 os técnicos da seleção inglesa de remo NÃO eram remunerados.

Os fatos acima remetem a uma realidade mais importante apontada pelo Wílson: investimento em conhecimento. Eu desconheço um país medalhista que não organize uma convenção anual de técnicos de remo, onde são apresentados trabalhos e trocados conhecimentos. Tive a felicidade de estar na mesma sala, durante um curso de remo em Seattle (EUA), com o Mike Spracklen, Al Morrow e o Dick McClure, todos do Canadá. Eles somam quilos de medalhas de ouro conquistadas em Mundiais e JO, mas nenhum tinha a pretensão de saber mais do que o outro. Ao contrário, trocavam com agudo interesse ideias com os demais participantes, ouviam e anotavam. São pessoas com um profundo amor pelo remo, capazes de trocar.

A Itália criou a agora chamada escola italiana de remo. Os seus técnicos reuniram-se para estudar e pensar o remo de forma científica, porque acreditam que o tipo físico do remador italiano exige uma remada com características próprias. Acabaram por desenvolver um novo padrão de remada, regulagem e preparação física. O resultado tem sido a presença constante da Itália nos pódios, apesar de ser um país onde o remo não é um esporte popular.

Países com populações pequenas como a Romênia, Croácia, Eslovênia, Holanda, Austrália e Hungria - todos medalhistas - só conseguem chegar ao pódio através da aplicação correta do conhecimento nos poucos remadores que possuem.

No Brasil criou-se o hábito de esconder o quase nada que sabemos. Quem viaja não divulga o que viu. Isto é insegurança! E ela reflete-se na água, no treinamento do atleta, que, no caso do Brasil, habituou-se a ir a regatas para ficar entre os últimos. Criamos uma seleção de derrotados mentais.

Não sou contra a criação de um CT, mas ele de nada adiantará se não houver a utilização correta do conhecimento. Ou alguém acredita que um CT solucionaria os problemas do remo brasileiro?

O nosso remo parece ter medo do saber ou, talvez, de mostrar o quanto não sabe (como se isto já não estivesse evidente). Eis porque ainda não entramos na era da medição de lactato. Ou porque apenas um técnico com bom nível escolar aceitou a proposta de acompanhamento científico do Gustavo.

Conheci o problema na pele, Gustavo. Em 1987 eu estava ativo na área de pesquisa em Fisiologia do Exercício. Fazia parte de um grupo que, por sugestão minha, ofereceu à CBR fazer testes GRATUITOS de sangue e lactato na seleção dos Jogos Pan-Am. O primeiro a mostrar desinteresse foi o técnico Buck, seguido pelos remadores, que alegaram "ter medo" de doar amostras de sangue.

Nos anos 70 e 80 tivemos alguns técnicos estrangeiros de renome dando cursos no Brasil. Raramente aparecia alguém da comissão técnica da seleção para assistir. E quando iam, ficavam mudos no fundo da sala.

Por iniciativa do Wílson, nos anos 70, tivemos o único Curso de Treinadores que chegou ao nível 3, seguindo o modelo canadense. No nível 3 tivemos o iugoslavo naturalizado canadense Peter Klavora dando uma semana de aulas. Atuei na tradução simultânea inglês-português. Também ajudei na correção das provas, por serem escritas em português. Ali pude ver, escrito e assinado pelos próprios, o nível de ignorância de uma porção lamentável dos nossos técnicos de remo, muitos deles incapazes de responder corretamente sobre conceitos elementares de treinamento.

Por outro lado, entendi que somente alguém muito apaixonado pelo remo investiria tempo e dinheiro em conhecimento num esporte que remunera e trata tão mal os seus profissionais num país que investe pouco e mal em esporte. No exemplo da Inglaterra, apesar da falta de remuneração, a estrutura permitia chegar ao ouro. No Brasil ocorre um fenômeno bizarro e, talvez, único: alguns remadores são bem remunerados (o que é louvável), possuem dedicação profissional, mas carecem de técnicos capacitados. Ironicamente, nos Estados Unidos, o país mais rico do mundo, os remadores ainda hoje precisam trabalhar para sustentar-se, mas chegam seguidamente ao ouro. Não por acaso, tanto a Inglaterra como os EUA reúnem centenas de pessoas anualmente em seus congressos para técnicos.

Ao meu ver, a receita para o Brasil é igual a dos países medalhistas: bom senso e investimento em conhecimento. A maior prova da nossa falta de bom senso é não utilizarmos sequer os recursos que já temos disponíveis.

Boas remadas

José Luiz Emerim

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